Se recuarmos aos primórdios da computação, numa época em que um único “servidor” ocupava uma sala inteira, podemos tomar como exemplo a máquina Bombe, desenvolvida durante a Segunda Guerra Mundial por Alan Turing, em colaboração com uma equipa de engenheiros britânicos.

A Bombe tinha como principal objetivo decifrar as configurações diárias da máquina Enigma, permitindo assim interpretar mensagens encriptadas enviadas pelo exército alemão. Tratava-se de uma máquina eletromecânica, e não de um servidor no sentido moderno da expressão, mas pode ser vista como um precursor dos sistemas automatizados de processamento de informação.

Mas a verdade é que o seu contributo foi extremamente relevante para o esforço de guerra dos Aliados, tendo ajudado de forma decisiva a antecipar movimentos estratégicos do inimigo. No entanto, é importante referir que não foi o único fator determinante para a vitória na guerra, mas sim parte de um conjunto alargado de esforços militares, tecnológicos e humanos.

Posteriormente, surgiu o Colossus, considerado o primeiro computador eletrónico digital programável. Foi desenvolvido pelo engenheiro britânico Tommy Flowers e utilizado para descodificar mensagens cifradas com a cifra Lorenz, usada pelo alto comando alemão.

Entre estas primeiras máquinas e os sistemas atuais, surgiu uma nova geração de equipamentos, já fora do contexto militar, que ajudou a consolidar as bases da computação moderna. A evolução de sistemas experimentais para soluções mais versáteis permitiu alargar a sua utilização a diferentes áreas e atualmente dispomos de soluções de elevada performance, como as plataformas de Inteligência Artificial.

Estes sistemas recorrem frequentemente a unidades de processamento gráfico (GPUs) para acelerar cálculos complexos, permitindo executar milhões ou mesmo milhares de milhões de operações por segundo, com aplicações que vão desde a investigação científica até ao desenvolvimento de modelos avançados de IA.

Apesar do seu potencial e da crescente adoção, continua a existir uma lacuna significativa na forma como as organizações conseguem medir, de forma objetiva, o valor real que estas tecnologias efetivamente entregam.

Se tomarmos como referência os primórdios da computação, uma fase marcada pela dificuldade em obter resultados corretos e consistentes é possível reconhecer que, atualmente, os sistemas de IA atingiram um nível de maturidade significativamente mais elevado e parecem, estar hoje no caminho certo para uma adoção cada vez mais ampla e eficaz.

No entanto, essa evolução não elimina um desafio central: a dificuldade em calcular o retorno do investimento (ROI) associado a este tipo de soluções. Apesar do seu potencial e da crescente adoção, continua a existir uma lacuna significativa na forma como as organizações conseguem medir, de forma objetiva, o valor real que estas tecnologias efetivamente entregam.

Tendo em conta o estudo global realizado pela SAP Concur, atualmente mercado tecnológico é cada vez mais global, o que significa que os desafios, tendências e dificuldades identificados noutras geografias acabam, inevitavelmente, por se refletir também nos mercados nacionais. E isto diz muito sobre a adoção e maturidade das soluções de Inteligência Artificial.

Segundo o mesmo estudo, 54% dos CEO e 50% dos CFO admitem ter dificuldades significativas em quantificar o retorno do investimento (ROI) associado à IA. Este fator, por si só, está a travar muitas organizações na adoção destas soluções, sobretudo quando os investimentos envolvidos continuam a crescer de forma acelerada.

Apesar disso, o investimento em IA tem sido significativo nos últimos anos. Ainda assim, 39% dos CEO e 38% dos CFO reconhecem que é demasiado cedo para retirar conclusões definitivas sobre se estes investimentos estão ou não, a gerar o retorno esperado. Esta perceção demonstra que muitas organizações continuam sem indicadores suficientemente maduros para medir impacto real.

O estudo identifica ainda vários obstáculos à adoção da IA, destacando-se a lentidão na materialização dos benefícios esperados, fator referido por 53% dos CFO inquiridos. Por outro lado, 51% dos participantes consideram que as expectativas iniciais em torno da IA são excessivamente otimistas. Outro ponto crítico identificado prende-se com a qualidade e integração dos dados, considerada por muitos líderes como um dos principais entraves à implementação eficaz destas soluções.

Relativamente aos critérios utilizados para avaliar a adoção de soluções de IA, destacam-se indicadores como produtividade, poupança de tempo, redução de custos e melhoria da qualidade. No entanto, em muitas organizações, a aplicação destas tecnologias continua demasiado focada em ganhos operacionais internos, em vez de estar alinhada diretamente com objetivos estratégicos de negócio. Essa realidade pode reduzir a visibilidade e o impacto da IA junto dos decisores.

O estudo chama ainda a atenção para a falta de alinhamento entre diferentes áreas das organizações. A ausência de métricas uniformizadas e de uma abordagem transversal para a medição do ROI dificulta significativamente a escalabilidade dos projetos de IA. Em muitos casos, esta limitação impede mesmo a evolução das soluções para além da fase piloto, atrasando a sua consolidação dentro das organizações.

Se olharmos para os primórdios da computação, percebemos que as maiores dificuldades estavam relacionadas com limitações técnicas, capacidade de processamento e fiabilidade dos sistemas. Atualmente, apesar da enorme evolução tecnológica alcançada, os desafios parecem ter mudado  e já não estão apenas na capacidade de processamento ou no desempenho das soluções, mas sobretudo na capacidade das organizações em medir valor, justificar investimento e transformar potencial tecnológico em impacto real no negócio.

Talvez estejamos novamente perante uma fase de transição tecnológica, onde o verdadeiro desafio não é apenas desenvolver tecnologia mais avançada, mas sim compreender de que forma essa tecnologia pode gerar valor sustentável e mensurável para as organizações e para a sociedade.

Ao mesmo tempo, começam já a surgir novas fronteiras tecnológicas, como a Computação Quântica, que prometem alterar novamente o paradigma da computação moderna. Tal como aconteceu nos primórdios da computação tradicional, também aqui o entusiasmo tecnológico surge acompanhado de desafios técnicos, estratégicos e económicos cuja verdadeira dimensão poderá apenas ser compreendida ao longo dos próximos anos.

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